ESPREITAR TODOS - DIÁRIOS 4

Por Sarah Adamopoulos (texto) e Céu Guarda (fotos) 

TODOS na igreja como no Mundo
Pequeno templo pobre, erguido e mantido ao longo do tempo com parcas esmolas, por sucessivas ocasiões integrado num convento a que foram atribuídas funções e valências outras, há na Igreja do Convento de Santo António dos Capuchos, nas suas pedras mais velhas sobreviventes ao grande terramoto, em qualquer coisa que o edifício material transpira, os solavancos da História passional do País com a sua Igreja.

Ontem, ao final da tarde, à hora em que o público do TODOS aguardava resilientemente à porta pelo início do concerto dos Violons Barbares, uma missa era rezada a contra-relógio, procurando o sacerdote celebrador, ali chegado com atraso por ter ido acorrer a urgências de reconforto espiritual inadiáveis (assim nos explicou) que o concerto pudesse começar sem mais demoras.

Poucos minutos depois de ter conseguido furar a multidão e entrar na igreja, ouvi o padre a abençoar os fiéis presentes e os ausentes, numa ladainha mística e poética que foi crescendo em capacidade inclusiva, alargando as suas graças a todos os outros, incluídos os perdidos de fé, e até mesmo os infiéis, numa espantosa invocação ecuménica do favor divino e da compaixão humana a todos contidos no Mundo. Começou aí o momento do TODOS na Igreja do Convento de Santo António dos Capuchos, embora a maior parte do público do Festival não tivesse ainda conseguido penetrar na igreja – que estava a abarrotar com a gente ali congregada para a missa, a que se foram depois acrescentando, acomodando-se como podiam, as pessoas que ali estavam para o concerto. Coubemos todos, como na bênção do padre.

Ao meu lado, duas senhoras falavam de tudo e de nada, ininterruptamente, ao mesmo tempo que faziam selfies e consultavam o Facebook. Vários elementos do público do TODOS tentaram que se calassem, mas sem êxito. E assim começou o concerto, que celebrou com sonoridades inesperadas a diversidade do Mundo. Uma música distante encheu a igreja e levou-me momentaneamente de volta a 2015 quando, numa outra igreja de Lisboa, ouvi uma das mais belas e transcendentais músicas de sempre, a oratória inter-religiosa Credo, criada para a edição do Festival do ano passado.

Entre a estranheza e a surpresa provocada pela alegria da música, as pessoas foram saíndo da missa e entrando no concerto – e as crianças dançaram em cima dos bancos da igreja onde minutos antes se haviam chorado de joelhos os mortos e os desvalidos. Uma espécie indefinível de jazz completamente doido (bárbaro) encheu o lugar de outras culturas, dando forma a um happening longe de tudo o que comummente pode ser ouvido numa igreja em Portugal.

Uma sequência unicamente formada por canções de amor – de amor humano sem outra elevação – levou as pessoas da missa de volta ao corpo, minutos antes limpo do pecado e já novamente enchendo-se dele. Bastará dizer que no final do concerto, e já depois de outras cavalgadas rítmicas e claramente pecaminosas, uma música búlgara foi dançada pelos fiéis, com as mãos a estalar dedos no ar e o rabo a dar a dar.

O mongol Dandarvaanchig Enkhjargal, virtuoso do morin khoor e cantor de raros talentos vocais (também xamanistas), o búlgaro Dimitar Gougov, tocador da gadulka, e o percussionista francês Fabien Guyot, levaram-nos a todos ali presentes na igreja para lugares onde a maioria não esteve jamais – situados na Mongólia, na Bulgária, na Georgia, na Macedónia, no Afeganistão ou ainda no Cazaquistão. E foi assim que a palavra bárbaro ganhou novos significados, sem relação alguma com a História oficial que narra os feitos incivilizados de povos pretéritos de invasores de outras crenças ou até mesmo nenhumas.

Bárbaros entre nós
Estavamos no entanto guardados para bárbaros mais concretos e conhecidos: os burgueses entediados que vivem connosco paredes-meias, em quartos de casal onde se dirime o jogo de poder conjugal que transforma o amor numa guerra torpe e quotidiana – habitualmente conduzida na ocultação pelas mulheres.

Ocidente, de Rémi De Vos (dramaturgo do norte de França, de ali perto de Calais e da Grã-Bretanha, onde um muro anti-refugiados se constrói por estes dias com o compromisso anuente e abjecto do governo socialista francês), teve lugar no histórico ginásio da Escola Secundária de Camões.

Com encenação de Vítor Hugo Pontes, um artista plástico tomado de amores pelo teatro e pela dança, e interpretação de Maria do Céu Ribeiro (espantosa forte) e Pedro Frias (excelente fraco), Ocidente é teatro novo, de texto escrito hoje (em 2005, quando ainda havia jugoslavos – constantemente evocados na peça), e espelha a miséria moral e espiritual da Europa pós-Guerra Fria, a partir da conjugalidade e de uma ideia de família totalmente decadente e dominada pelas relações de poder – e também por um desejo melancólico (romântico, tendo preferencialmente o mar por cenário) de morte que ponha fim a tamanha miséria existencial. Muito bom teatro novo realista.

Sarah Adamopoulos e Céu Guarda acompanham o Festival TODOS pela primeira vez e produzirão um diário escrito e fotográfico entre os dias 9 e 12 de Setembro. A abordagem é autoral e pretende documentar, numa perspectiva distanciada e assumindo escolhas, momentos significantes da edição de 2016 da Caminhada de Culturas.


Publicado por Festival TODOS às 12-09-2016 13:10

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