Diário de Bordo - Todos 2017

dia um (e os que vieram antes)

Debaixo do pinheiro mais antigo do Campo Santana cresceu um sofá com vista para um louceiro que desponta no meio da relva. É o começo do dia e já o jardim dá estranhas flores: gavetas que são aparadores, espelhos que são mesas, malões de viagem que são bancos. Cada móvel e cada pedaço de tecido são como um espelho retrovisor deste festival que trabalha durante meses na tecedura do seu programa com pessoas de muitos lados do mundo e da vida - na pesquisa, na criação artística e na estrutura pensada ao detalhe para receber os convidados para os três dias de celebração. Durante o mês de agosto, por exemplo, o ‘aquário’ no meio do jardim foi ocupado por um atelier de construção para este mundo que agora se põe de pé: atelier de carpintaria a partir de móveis herdados e doados e atelier de costura de toalhas, mantas, estandartes e aventais por uma equipa de artistas da tesoura e da agulha - na sua maioria mulheres refugiadas de guerra, recém chegadas a Portugal, que deixam a sua marca nos tecidos brilhantes que hão-de acolher todos os que quiserem celebrar esta festa comunitária

 

O festival que nos faz conhecer pessoas que raramente visitamos e lugares onde raramente penetramos fez do Palácio Centeno o seu lugar para o TODOS 017. Normalmente encerrado ao público, o nº1 da Alameda de Santo António dos Capuchos é, durante esta tarde, o epicentro das actividades. À esquerda, no escritório inventado no rés do chão, há uma linha de montagem de sanduiches para alimentar a necessitada equipa de voluntários e organizadores que arrisca desfalecer entre o acto de mobilar o jardim, acorrer aos vários espectáculos em ensaios e ultimar as montagens das exposições; a feitura do almoço-lanche-jantar corre lado a lado com uma fila para marcação de bilhetes para o espectáculo Halka (que inclui um jantar marroquino) e duas das pessoas mais preocupadas com a reserva tardia são Maria João e Sara, mãe e filha de uma família de 5 que vive ali ao fundo da Luciano Cordeiro e não tem perdido um festival desde que ele acontece no bairro. “Agora é a terceira vez”, diz Rosa do alto dos seus 9 anos, que “ainda era pequena”, mas lembra-se muito bem das pessoas “a saltarem umas para cima das outras no hospital” (Miguel Bombarda, há dois anos). Havemos de nos encontrar no último dia do festival, é para domingo que conseguem as reservas.

Entretanto, no hall, uma dúzia de pessoas passarinha nervosamente de um lado para o outro, e há várias tentativas de ultrapassagem da placa que marca a inauguração da exposição para as 19 horas.

Ultimam-se as limpezas nos salões forrados a azulejos do primeiro andar, onde as fotografias de Luís Pavão, Maurizio Agostinetto e Rosa Reis instalam mundos invisíveis, palácios, conventos e hospitais em vias de se tornarem hotéis ou condomínios de luxo - os Lugares da Colina. “É o único ano em que não fotografamos pessoas mas sim lugares, era importante fixar esta memória nesta Colina em transformação completa”, diz-me Giacomo Scalisi, programador do Todos. Há a extraordinária panorâmica de Luís Pavão sobre o Rossio, com o foco assestado sobre o convento da Encarnação. Lá dentro, Cristo no sudário e roupa a secar nos claustros. Havemos de ver ao vivo quando assistirmos a Encarnado, essa mistura de senhoras sem idade definida mas com muita idade, algumas a passar pelas novas multidões como se estas não estivessem ali, no seu território, outras a assistirem, de varanda, às performances que o bailarino e coreógrafo António Torres, Beatriz Dias, João Véstias, Margarida Garcez, Telma Antunes, Susana Vilar e crianças e adolescentes do bairro inventaram para o jardim interior do Convento onde, talvez pela primeira vez na longa existência do edifício, adolescentes ensaiam um rap.

Ao lado, nas fotografias, o antigo Palácio do Patriarcado que foi casa do Todos em 2016 volta a abrir portas pelos olhos de Rosa Reis, apesar de continuar trancado a olhar para o jardim do Campo dos Mártires da Pátria. Um ano na vida de um edifício destes é nada, mas dura uma eternidade na vida das pessoas que vivem no bairro e frequentam o jardim. Está novamente inacessível, como inacessível está o antigo Instituto Bacteriológico Câmara Pestana onde, não fossem os instrumentos arcaicos, parece que as fotografias começaram no instante mesmo em que acabaram de sair as equipas que lá trabalhavam. Isso mesmo, o abandono, essa riqueza negligenciada e que nos é vedada, é o que mais incomoda Amélia, que hoje fechou à hora certa o mercadinho que abre todos os dias menos domingo numa das esquinas mais frequentadas do Campo Santana para dar um salto ao Palácio. Maravilha-se com os tectos, as paredes, faz-lhe muita confusão o que vê nas fotografias no antigo Convento de Santa Marta de Jesus - hoje Hospital de Sta Marta -, papel e mais papel, pastas e mais pastas, arquivos e mais arquivos a atafulharem a antiga capela, tanto espaço bonito sem uso que se veja, paredes cheias de azulejos a servirem de despensa, espaços em que a nossa presença não é permitida. Diz que o Todos devia continuar a abrir estas portas todos os anos, tem pena que fechem a seguir, não quer pensar que não vão voltar a abrir-se e que o festival não vai regressar ao bairro, como ouviu dizer.

Passava das 8 quando Amélia chegou, já não ouviu os discursos da abertura oficial do TODOS 017, mas muito do que se disse na escadaria do palácio passou tangentes às suas preocupações. Manuela Júdice, que acendeu o rastilho do TODOS e agora se despede do seu lugar na CML, lembra que, tal como a Mouraria das primeiras edições, Lisboa deixou de ser uma realidade desconhecida. E que “o TODOS é de Lisboa, assim como Lisboa é de todos”. Fernando Medina recebeu uma lanterna à chegada, como todos os que se preparam para ver as exposições, e sublinha o carácter do gesto “revelador das surpresas do TODOS”. Em vésperas de eleições autárquicas, o presidente da CML assegura que “fazer de Lisboa uma lanterna de boas práticas interculturais é a convicção de quem ocupa o poder”. 

Miguel Abreu, director do festival, resume em linhas breves aquela que foi a prática ao longo de 9 edições: “é através da cultura que conseguimos encontrar-nos” e “o caminho é fazer do TODOS uma prática do dia a dia”. É fundamental abrir espaços de proximidade, como me disse em conversa uns dias antes: “Somos todos estranhos em relação aos outros, e este festival quer transformar o outro num vizinho, cujo conhecimento nos enriquece, venha ele de onde vier”.

Festival pioneiro na aplicação e questionamento de um conceito largo de interculturalidade, que traz o Outro para o centro do pensamento e acção artísticos e para o centro da cidade (Martim Moniz, Intendente, Poço dos Negros, S.Bento, Colina de Santana), o TODOS entra na nona edição sob o signo da suspensão: a vida em suspenso (dos refugiados, sim, mas não apenas, de todos nós, nas muitas questões que a vida sempre coloca), os espaços em suspenso, em vias de transformação, e, last but not the least, a condição do próprio festival, que do futuro sabe nada. A décima edição é coisa incerta, dependendo que está da vontade política. A ser do público – numeroso e de difícil classificação, que esgota tanto os espectáculos dos formatos mais tradicionais quanto as propostas mais vanguardistas, que é estreante e que é fiel, que é amplo tanto na idade como na condição sócio-cultural -  estaria solidamente assegurada.

A luz desceu, os discursos acabam, a festa começa.

Há um tropel escadas acima, um mar de luzinhas a apontar para as fotografias penduradas mas também para os tectos trabalhados, as fotografias em concorrência com as iluminuras douradas. Um grupo discute se as máscaras de gesso fotografadas por Paolo Longo serão de gente morta. São. Mais exactamente morta por asfixia – pessoas enforcadas, por castigo ou moto próprio, assassinadas por estrangulamento, talvez também afogadas – e por isso mesmo parte de um estudo – com muitas aspas – levado a cabo no início do século XX e destinado a averiguar – e documentar - a existência da alma. Conta Giacomo Scalisi que há mais de 300 destas cabeças no Instituto de Medicina Legal, cujo director na altura acreditava com veemência na fiabilidade do estudo.

Entre os muitos comentários deixados no caderno de notas que instalo no hall do palácio destaco estes:

“Foi a minha primeira exposição que vi com uma lanterna. Adorei” – Mariana Pinto, 12 anos, Escola Voz do Operário

“Excelente exposição que permite que o cidadão português ou estrangeiro  possa ‘visitar’ através da imagem, espaços não habitados, esquecidos ou mesmo activos” – Susana

“Parabéns!! Deveriam abrir o edifício mais vezes por ano! Obrigada” – (assinatura ilegível)

 A noite caiu e no jardim do Campo Santana há lassi indiano e ponche de tamarindo cabo-verdiano a acompanhar iguarias mexicanas e do médio oriente no primeiro piquenique do TODOS – o verdadeiro é amanhã, hoje é só uma amostra do que há-de vir. Quando parece que já não há mais nada para comer, Madalena Victorino regressa com um tabuleiro de húmus, acompanhada por Céline que traz pão de padeiro (o pita acabou de acabar), mas já não há tempo para a gulodice, é preciso ir a correr garantir que há lugar no Palacete da Gomes Freire 90, onde cresce o grupo de espectadores de Passajar. “Bem vindos ao meu palácio”, diz Haitham Khatib na sua língua mãe. Não deciframos as palavras mas compreendemos a generosidade do gesto, o convite no olhar deste homem, 46 anos, sírio, filho de pai árabe e mãe curda, ambos mortos. Ele continua: “muita coisa mudou, estou cansado, muito cansado, mas gosto muito, mesmo muito de vos ver aqui”. As frases cantam, o corpo dele e os olhos dele continuam a dançar, e só quando Estêvão Antunes, seu espelho, refaz o convite em português, a mágoa encontra a tradução que a festa já tinha. É o início do espectáculo criado de raiz para o festival em cima dessa linha provisória, do passajar, que Madalena Victorino atirou a quatro criadores e a um grupo de refugiados da Síria, Irão e de vários países africanos que há dois meses atrás se desconheciam. O TODOS é muito isto, o encontro a muitos níveis e direcções. “Eles conheceram-se durante o percurso e nós também”, conta Júnior, músico português que sabe o que é tocar na rua de um país estrangeiro sem saber onde deitar a cabeça ao fim do dia, que sabe o que é o soukouss (a música tradicional do Zimbabwé), que é capaz de mexer os ombros como um zimbabuano. Almoço com ele e com os outros 3 artistas profissionais uns dias antes desta noite de estreia: Maria Ramos vem do movimento, Margarida Gonçalves do teatro físico e Estêvão Antunes do teatro. Ele diz: “Somos um todo. Neste momento não há grupos, há um grupo que nos inclui. E isso surgiu naturalmente”. Antes de entrar no Conservatório, Estêvão fez duas comissões no Afeganistão enquanto piloto aviador da Força Aérea Portuguesa, e as descrições que fez do território visto de cima fazem parte de Passajar, tal como as de Anicete, refugiada política angolana que trabalhou como guia do Museu do Sapato canadiano. As suas experiências ressoam na experiência de outros, dos que receberam um par de sapatos quando chegaram ao seu primeiro campo de refugiados, dos que traduzem ‘pôr-se no lugar do outro’ por ‘pôr-se nos sapatos do outro’, daqueles para quem um monte de sapatos convoca os campos de extermínio nazi.  Agora, num mar de sapatos, todos caminham, mas não saem do lugar, num jogo permanente com o público e os lugares que ele ocupa. Somos muitos a segui-los de sala em sala no palacete da Gomes Freire, onde as histórias se vão contando ou apenas deixando-se adivinhar com movimento e música. “Cheguei para não ficar” canta o coro, nas muitas línguas que este espectáculo fala - congolês, português, sírio, zimbabuano.  “Esta peça é um mosaico. Tira-se partes pequenas de várias vidas para fazer uma coisa que é diferente destas vidas todas. E o grupo, nós, também somos mosaicos”, diz Khatib, a excepção num elenco que está pela primeira vez do lado de dentro de um espectáculo. “Não sou actor, trabalho com sombras”, clarifica, e poucas vezes realidade e símbolo caberão tão justamente numa síntese. Explica a tradição síria do teatro de sombras com marionetas, e como o que fazia no Teatro Nacional de Damasco era já contra a convenção, usando as mãos e o corpo para criar as sombras. “Depois” – diz, contraindo o tempo e tudo o que não cabe numa conversa breve como a que tivemos em vésperas de estreia  – “fui para Alleppo. Foi há dois anos, era o tempo difícil entre os tempos difíceis. Quando vês grandes jardins transformarem-se em grandes cemitérios, quando essas mortes se tornam uma coisa normal, quando as crianças brincam em montes de escombros e encontram partes de corpos e já ninguém se importa, ou chora, ou tem sentimentos em relação a isso, então o sobrevivente também está morto. O coração é uma caixa vazia. Eu mantive o meu espírito a salvo mas paguei um grande preço em dor. É como caminhar descalço sobre bocados de vidro. Tento criar memórias boas para equilibrar estas más memórias e a arte é uma boa terapia. O teatro ajudou-me a reconstruir-me, salvou-me”.

Há famílias desaparecidas, relatos que doem só de repetir, um pudor que é preciso vencer.

“No início tive receio de perguntar a cada um a sua história mas depois limpei esse tabú, estas pessoas têm uma carga que é importante partilhar. E as histórias começaram a abrir caminho em mim e no trabalho, o nosso livro de pesquisa são estas vidas”, diz Maria Ramos.

Khoshnaf Alosh e Mohamed Yahya Dabah escolheram trazer para a peça o tema de um rapper sírio. “É importante falar do que está a acontecer e sonhar com o que poderá acontecer, como podemos voltar a viver na Síria. E esta canção fala disso”, explicou-me Yahya, a preparar a entrada no 11º ano e o futuro como engenheiro informático. Tem 16 anos feitos em Portugal, onde chegou em 2015. O pai morreu numa das primeiras batalhas em Damasco, a mãe, as irmãs e ele conseguiram sair do país em 2012. São elas que agora tiram fotografias, e no fim abraçam metade do elenco, numa festa que se estende a todos os espectadores (e que, dias depois, avançará pelo Mercado de Arroios fora, na festa de abertura do Mezze, restaurante sírio onde a mãe de Yahya comanda a cozinha).

César também fotografou, não apenas esta noite em que o espectáculo se fez público mas muitos dos momentos da sua construção. É um dos voluntários do TODOS, tem 29 anos, mora na Calçada de Carriche e a sua área de interesse e trabalho é a fotografia, a escolhida quando decidiu juntar-se à equipa, seguindo uma amiga que também se voluntariou para esta edição. “Estive uns anos fora de Portugal e nunca sequer tinha ouvido falar no festival. E também foi a primeira vez que estive em contacto com refugiados. Foi uma experiência que me marcou e esta peça também, é incrível ver que foi feita com as histórias deles próprios”.  Mais tarde há-de partilhar outra revelação: “o TODOS não é um festival do marketing, não é uma coisa comercial. É uma coisa das comunidades, das pessoas, e isso surpreendeu-me porque ainda por cima tem muita gente a ver tudo. É incrível a quantidade de público que vem ao festival”.

A proximidade com o mundo árabe, que se adensou nesta edição, faz parte da mundividência orgânica que o TODOS respira desde que nasceu entre o Intendente, o Martim Moniz e o mundo. “É um festival da cidade, não é só do bairro. Cada bairro tem as suas características, e o TODOS precisa dessa diversidade”, há-de dizer-me Madalena Victorino, em conversa mais tarde. “Com esta afluência de refugiados tivemos essa paleta, os vários cantos do mundo representados. E o mesmo acontece com as pessoas que colaboram e que vêm de várias realidades da cidade. Aprendemos a ir buscar o mundo inteiro à cidade de Lisboa”.

Marcha rápida na direcção do Campo Santana, com passagem pela Galeria Monumental, um dos raros lugares de cultura e encontro que, consequentemente, chama o bairro às suas salas de exposição e ao seu pátio - entre música ao vivo e feiras de edição independente, há muita conversa a correr à sombra do limoeiro durante o ano inteiro.

Os abraços apertados que vi e troquei no Palacete da Gomes Freire continuam no jardim, no concerto ao luar com público dos 7 aos 77 anos, como este casal aqui, ambos de cabelo branco, ambos sentados na relva, a gingar de um lado para o outro, ou esta miúda de caracóis a dançar nos ombros do pai. Há quem chegue com as mãos cheias de imperiais, a distribuir pelo grupo de amigos que abana o corpo ao ritmo de Aline e Danilo e da Orquestra Todos, todos juntos pela primeira vez - e ainda ontem a ensaiar no rés do chão do Palácio Centeno, janelas abertas para o calor da Alameda dos Capuchos, tantos curiosos do lado de fora como público amigo lá dentro, a seguir esse milagre de toda a gente estar no mesmo ritmo e tudo bater certo.

Está frio, mas ninguém arreda pé. Quanto muito, cada um junta aos planos para o dia seguinte um agasalho mais quente, ténis em vez de sandálias, cachecol.

No regresso a casa encontro todo o elenco de Rifar o meu coração ainda de cabelos molhados, à porta de uma popular tasca. Também este espectáculo de Mónica Calle  transgride fronteiras, salta barreiras. No espaço carregado da única sauna mista lisboeta – a SaunApollo, na Luciano Cordeiro - os lugares apertados e quentes, o dispositivo da peça e os performers instalam uma proximidade que começa logo na ausência de roupa – os espectadores são convidados a assistirem à peça de fato de banho, lingerie ou roupão – e cavalga por ali fora, num território híbrido onde testemunho e ficção se misturam e exponenciam e o lugar do espectador é constantemente posto em causa, se não mesmo abalroado. Duas noites depois também eu terei cabelos molhados e purpurinas coladas à pele.

dia #2

São 10 da manhã no Campo Santana, galinhas debicam aqui e ali entre caixotes com copos, pratos, chávenas, mantas e toalhas de mesa que esperam a hora de servir enquanto um pequeno exército, comandado por Madalena Victorino, mobila o jardim outra vez. Parecem duendes, não fosse o trabalho tão físico. Os móveis que suportam o relento ficaram no seu sítio – o sofá, um grande armário branco, mesas e mesinhas, mas outros, como a prateleira de livros que acaba no ramo de uma árvore, estão a ser realojados, ao mesmo tempo que quatro continentes se instalam com vista para o lago dos patos.

Dias depois, entre as arrumações que sucedem ao festival, a coreógrafa destas movimentações que fazem do espaço público uma casa que acolhe todos, diz-me: “Podemos apropriar-nos da rua, dos espaços e fazer com eles salas de estar, de jantar, teatros – espaços de vida e de arte. Como viver em casa dentro da cidade foi o que os projectos com pessoas sem-abrigo me ensinaram, esta magia de transformar o exterior em interior”.   

Há um portal para cada triângulo do jardim-mundo, 3 ao todo, cada um a dar entrada num universo chamado Walima (a palavra árabe para banquete) que celebra quem faz e quem se junta à festa. Bem Vindo diz este que conduz a Síria, Eritreia, China e à Angola de Maria Andrade Trovoada, já repetente do Todos – começou há 2 anos e nunca deixou de aqui voltar. Diz que agora é mais fácil calcular as quantidades mais ou menos certas. Para quantas pessoas? Muitas, responde com uma gargalhada. E são muitos os clientes para a tradicional moamba (aliás duas moambas, uma de galinha, outra de vegetais) com funge e feijão frito em óleo de palma. Pela primeira vez arriscou trazer kissagua – um refresco de ananás e farinha de milho que é tão estranho quanto delicioso – e kitaba, pasteis de pasta de amendoim e piri-piri –  ou jinguba e jindungo, como se diz em Angola -, que estão a voar para mãos e bocas aventureiras enquanto falo com ela. “Acho que a cozinha angolana já entrou nos hábitos dos lisboetas”. Ao contrário de Maria, os três cozinheiros da Eritreia, seus vizinhos, vivem há pouco em Portugal. Refugiados, Awet e Tekle chegaram há mês e meio, Yikal há 6 meses. É ele que fala, que apresenta os pratos tradicionais que se vão comendo com o pão pita a fazer de colher. “Cozinhamos carne de vaca e feijão, batata com cenoura e húmus, receitas tradicionais que aprendi a fazer em casa. É a primeira vez que estou neste festival mas está a ser bom, muito bom. As pessoas estão curiosas”. E para acompanhar bastam dois passos em direcção aos sumos da guineense Mariama, belíssima no véu preto e branco que a cobre. “O meu marido faleceu há pouco tempo, eu não saía de casa mas eles (do festival) incentivaram-me a vir e acho que fiz bem. É o terceiro ano que estou no Todos. Arranjam-se oportunidades e amigos aqui”. Mariama deixou a Guiné Bissau há 21 anos e costuma vender os seus sumos deliciosos no Rossio, com o Teatro Nacional e a Ginginha por vizinhos. Tem de goiaba, gengibre e ananás – “é o que mais sai” -, 7 frutos e os menos conhecidos flor de hibisco – “bom para combater a tensão alta, o colesterol e a diabetes” – e cabaceira, “que tem de ficar de molho 12 horas e é muito bom para os ossos”. 

No triângulo vizinho instala-se o México, o Irão, a Índia, o Chile e o Equador.

Para Amparo e Ricardo é a primeira vez aqui, e este é o primeiro almoço que servem. Estão a adorar esta oportunidade de apresentarem o país no festival. Diz ela: “a Associação do Chile em Portugal é muito nova, estamos a começar tudo. Resolvemos trazer comida de todos os dias, sopaipillas (com farinha de trigo e abóbora) e empanadas de carne (e azeitona e ovos)”. Tudo com ar delicioso e a encher os pratos de um numeroso grupo de amigos, 4 casais entre os 30 e os 40 anos, quase todos jovens pais de crianças pequenas que, vindo o bom tempo, costumam encontrar-se no jardim ao final da tarde. Quase todos profissionais liberais, seguem o TODOS desde que este chegou ao bairro onde 4 deles vivem. O Campo Santana mudou muito desde que começaram a frequentá-lo, está mais limpo e mais bem tratado, com a esplanada da Mosca da Fruta a congregar pessoas nas suas mesas. Mas que bom seria ter mais vezes o jardim mobilado assim e bancas de comidas deliciosas para picnicar no meio da relva. Gonçalo, que é jornalista, diz que hoje o mais surpreendente foi ver as crianças a gostarem da comida chilena e do “estranho mas bom sumo iraniano”, que há uma familiaridade com o mundo que começa pela boca. Estamos a milhares de anos-gastronómicos de distância da sua própria infância, onde a coisa mais exótica era a comida chinesa. O tal sumo ‘estranho’ - amarelo esverdeado com pepitas pretas e uma textura ligeiramente gelatinosa - chama-se tokhme sharbati e é um refresco iraniano feito com sumo de limão, açafrão, água de rosas, açúcar e sementes de chia. É uma das estrelas da banca mais explícita de todo o banquete, com o cardápio em exposição a apresentar e traduzir os 2 menus disponíveis, um vegetariano outro carnívoro, com entrada – mirza ghasemi, i.e, beringela grelhada - e sobremesa por 5€. O arroz é iraniano - explica Nahid, num português extraordinariamente claro para quem, como ela, está só há 10 meses em Portugal - cresce em grandes campos no norte do seu país e tem um sabor diferente do ocidental. Integra a sobremesa, o adas polo - prato vegetariano de lentilhas, passas, soja, pickles, salada e, lá está, arroz – e o jooje kebab, umas espetadas de galinha e vegetais perfeitamente temperadas que Ismael, ao lado, faz ao momento no grelhador. Ele cozinha profissionalmente – fico a saber que existe em Lisboa o restaurante 1001 noites, de especialidades do Médio Oriente – e Nahid está cá a fazer o mestrado em Gestão de Turismo. A experiência do TODOS encanta-a: “há muitas pessoas, é muito bom. É comida muito nova para muitas pessoas mas perguntam e comem”. Não é o caso dos 3 rapazes na casa dos 20 anos – como ela e Ismael -  que chegam e fazem logo uma festa. São iranianos, estão em Lisboa há 4 meses e acabaram de se mudar para o Campo Santana, onde dividem casa. Saeid escreve o seu nome no meu caderno e explica, em inglês, que os 3 amigos – ele, Iman e Isina – vieram para Lisboa estudar cinema e estão a gostar muito do seu novo bairro (antes moravam no Areeiro) e deste festival “surpreendente”. Tencionam aproveitar o que ainda está para vir. Umas mesas à frente encontro Ana, 50 e poucos anos, moradora em Alvalade e fã do TODOS desde a primeiríssima edição. Digo-lhe que foi em 2009 e espanta-se com a conta. O tempo passa a correr. “Lembro-me de uma fanfarra paquistanesa a atravessar a Mouraria, foi incrível. E da trapezista no arame, que atravessou este jardim aqui por cima, o ano passado”. Este ano trouxe a filha Inês, que está a estudar em Londres e chega agora à mesa com iguarias chilenas. Ambas têm de se pôr de acordo sobre o que querem ver.

Tento falar com um grupo de nanis (avós) nos seus saris preciosos que vigiam as netas vestidas de princesas em grandes correrias pelo jardim, mas dizem-me que não percebem com um sorriso. Eu desculpo-me por não saber hindi, fica para outro dia com mais tempo e talvez tradução, assim as volte a encontrar sentadas à sombra das grandes árvores do jardim, a olhar pelas netas pelo canto do olho. São também indianas as especialidades que o Alexandre, espigadote nos seus 5 anos, come agora com apetite enquanto a mãe, Ana, e a amiga, Ana, tentam escolher entre as várias propostas do TODOS para o resto do dia. Ana e Alexandre moram em Alcácer do Sal, vieram passar o fim de semana a Lisboa e estão pela primeira vez no festival com a amiga que mora em Alfragide e é, também ela, espectadora estreante do festival (ouviu falar na escola onde lecciona). A mãe Ana diz que ainda estão a começar, mas continua: “estou a adorar o conceito, a forma como prepararam o conforto de quem vem – os copos de vidro, os pratos de loiça, as mantas -, a originalidade e a diversidade das cozinhas presentes, o aproveitamento do jardim público para verdadeiro uso das pessoas”. Fala rapidamente e remata, quase desculpando-se: “só tenho um comboio de elogios”.

Volto a encontrar o trio na roda grande, com vários círculos exteriores, que se desenha em volta de Phasmes, espectáculo para dois performers extraordinários – ela cambodjana, ele francês - e um jardim, este jardim. Os corpos fundem-se um com o outro e com a paisagem, descolam-se, individualizam-se, repelem-se, hipnotizam. Muitas das pessoas com quem falei elegeram este espectáculo – aberto a todos, sem necessidade de senha ou reserva - como favorito. “Parece um urso, parecem bichos!”, diz extasiada Nicole, 6 anos, acompanhada pela avó e pela mãe, Clara, designer de 40 anos. Moram na Graça e seguem o TODOS desde o Intendente, dizem-me. Amanhã não conseguem vir mas hoje vão tentar ver o espectáculo Passajar.

Encontro Alice, artista plástica e minha vizinha no bairro, que conseguiu bilhete para o espectáculo O Medo a Caminho, de Rui Catalão e Luís Leonardo Mucauro, no longo corredor do edifício central do antigo hospício. Mais tarde há-de contar-me que fez o exercício proposto pela peça – regressar à sua mais antiga recordação – e teve uma incrível epifania. Mas a experiência da peça não se ficou por aqui, houve mais. “Marcaram-me aquelas histórias de vida e relações amorosas do quotidiano moçambicano, tão fora da minha ‘bolha’, e a presença de vários espectadores negros na plateia. Fez-me reparar que, normalmente, eles estão ausentes”.

Esta capacidade que o TODOS tem de tornar visível o que não vemos nos nossos dias está inscrita no seu dna, bem como essa outra, paralela, de injectar maravilhamento no quotidiano. A meio da semana, a caminho da minha mercearia habitual, cruzei-me com uma trupe de malabaristas que descia a Bernardim Ribeiro trocando malabares, perante as caras boquiabertas dos comerciantes da rua, moradores e automobilistas – que não sabiam se haviam de parar ou avançar. Quase todos acabavam com um bilhetinho na mão, que dizia: “Sábado 9 setembro às 20h30, no âmbito do Festival TODOS, encontro no Quartel de Santa Bárbara/ antigo quartel da GNR, rua Jacinta Marto. Gratuito”. Eu e centenas de pessoas – tantas quantas as bancadas montadas no picadeiro conseguiam albergar - respondemos ao convite. Percebi que tinha estado dentro do “perímetro da pesquisa malabarista da colina de Santana” empreendida pelo colectivo Protocole, virtuosos artistas que andaram a reconhecer histórias de “cúmplices locais” que depois integraram no seu espectáculo vanguardista, Monument. Com ele e com eles viajamos pelo quartel, descobrindo espaços abandonados, ouvindo histórias e desejos – “queria que houvesse uma piscina no bairro”, “queria que os gelados da Mú fossem gratuitos, queria...”- e celebrando “o pequeno e o invisível” através do malabarismo – “essa arte que exige 10 anos para fazer uma figura que dura 10 segundos”.   

 Releio as respostas às questões que lanço nos caderninhos ESCREVE-ME (exemplares colocados no Palácio Centeno e no jardim do Campo Santana):

1 . Qual é a mais intensa memória que tem do TODOS (até agora, claro)?

“A alegria e a boa disposição das pessoas. Acho que este é o único festival na cidade de Lisboa nestes moldes. É uma pena se acabar, pois para muita gente é uma novidade. Vivo na Graça e só o ano passado (2016) é que ouvi falar deste festival e para muitas pessoas este é o primeiro ano que vieram” – anónimo/a

“É um rapaz bonito!” - anónimo/a

“Sem qualquer dúvida o TODOS 2009, pela participação e pelo rasto que deixou” - Manuela Júdice (que esteve na origem do TODOS, cuja primeira edição aconteceu em 2009)

“2015, Paço da Raínha, visita – À descoberta da Colina de Santana. Lotação 50 pessoas e surgem...aproximadamente 1000. Vinda da experiência de produção em dança contemporânea tinha alguma dificuldade em aceitar, ao longo do processo de preparação do festival, que todos os projectos pudessem esgotar. E foi o que aconteceu sucessivamente ao longo das edições com propostas de todas as áreas artísticas – umas mais democráticas, outras mais herméticas -, todas! Talvez porque se sente uma entrega e carinho particulares em tudo o que se propõe; talvez porque há uma filosofia  - que é na verdade bastante pragmática – de acolher a todos na sua unicidade, especificidade, beleza, dando a ver o que de mais positivo tens. Por estes motivos, que não se medem nem somam, por outros também inomináveis mas certamente pressentíveis, tem o TODOS um público fiel que ano após ano vê Lisboa através dos olhos da multiplicidade de identidades de que é feita a cidade. Memórias intensas são mato!” - Clara Antunes (uma das produtoras executivas nas edições de 2015 e 2016 do TODOS, acrescento eu).

2. Que nova pessoa – história – sabor conheceu hoje?

“Sabor do México” - anónima/o;

“The family checkpoint” – Sérgio;

“Eu gostei de tudo mas o Halka foi especialmente bom! Que o TODOS seja eterno!” - a assinatura é o desenho de um jardim com um lago no meio, ou de uma peça de puzzle, não sei;

“Todos juntos para uma grande festa de descoberta do outro. Obrigada a TODOS! – Inês.

 

dia#3 (e os que vieram a seguir)

“Eu gosto muito de rir” diz-me Maria Helena, a mais faladora do grupo de “raparigas sexagenárias” que conheço no último dia do festival. “Éramos 8 sentadas no chão a comer e a rir, ontem no jantar marroquino, depois de vermos aqueles excelentes artistas (do espectáculo Halka)”, conta-me. Hoje veio ao banquete do Campo Santana com as amigas, quase todas reformadas, que conheceu no Centro de Artes da Graça. Maria Helena mora nas Avenidas Novas e segue o TODOS desde que o festival ocupou o eixo Poço dos Negros - S.Bento. “Vi uma peça de teatro (nessa edição) que mexeu tanto comigo que acordava a meio da noite a pensar naquelas pessoas. Era de uma companhia francesa e passava-se num enorme espaço vazio, onde chegavam camiões com contentores. Era já noite e dos contentores começaram a sair pessoas. Não havia uma única que falasse. Eram fantasmas. Não se disse uma palavra, só o lixo falava – cadeiras a arrastarem, tubos a arranharem o chão”. Eu não vi essa peça, mas a descrição de Maria Helena levou-me lá.

Ao final do dia hei-de falar dela a Giacomo Scalisi, na tentativa de compreender melhor o público vasto do TODOS. Diz-me ele: “Há este público que migra connosco, e isso é tão bonito e sempre tão surpreendente. Mas faz sentido, porque fazemos isto com amor por aquilo que se faz. Como se fosse para nós. Se alguma coisa não acontece bem ficamos como se fosse com uma doença. E as pessoas percebem, porque o retorno é incrível”.

Mas agora ainda o almoço vai a meio e do outro lado do jardim há uma mesa com seis pessoas em alegre cavaqueira. Penso numa família de avós, pais e filhos adolescentes. Engano-me. “Acabámos de nos conhecer”, diz Luís, divertido, e a mulher, Alice, completa: “sentamo-nos aqui por acaso e descobrimos que temos imensa coisa em comum”.

António e Marta e os filhos, Tomás e Mónica, assentem, e começam os 6 a enumerar as tais coisas partilhadas, desde terem sido vizinhos na Estrela a terem a Guiné em comum – António e Marta conheceram-se quando ambos faziam voluntariado numa ONG guineense e Luís fez o serviço militar no país em plena luta contra o domínio colonial e tem um importante blog de ex-combatentes que uniu portugueses e guineenses. E são todos fãs do TODOS. É a terceira edição para a família de Marta (que trabalha numa ONG em Lisboa), António (que negoceia em vinhos) e para os filhos Mónica e Tomás, ambos estudantes: lembram um workshop de cozinha brasileira no mercado de Arroios como um dos momentos marcantes da sua história com o festival, replicado na cozinha doméstica vezes sem conta. É uma forma de levar o TODOS para casa. Este ano, Luís começou o festival com a visita à Embaixada de Itália que achou importantíssima (e que esperou 3 anos pela devida autorização, hão-de contar-me os programadores): “É um pedaço da nossa história que agora é território estrangeiro e raramente podemos visitar. É por coisas como estas que eu sou militante do TODOS. Fui pela primeira vez à edição do Poço dos Negros e nunca mais parei. E este ano parece que ainda não parei de comer, comecei na sexta feira e continuei ontem no jantar marroquino, que foi uma maravilha. Acho que comi o melhor couscous da minha vida”. Hoje ele e Alice dividiram-se, em termos de gastronomia, pela Síria e pelo Irão e não se arrependeram.

Um grupo que fala francês desce a rua que leva ao Miguel Bombarda, também eles queriam ir ver (e comer) Halka e perceberam demasiado tarde que era o único espectáculo que necessitava de reserva com antecedência. “Está tudo esgotado”, lamentam. Entre eles há duas portuguesas irritadas por não terem conseguido bilhetes para Fragmentos do Fim. Uma na casa dos 40, a outra dos 60 anos, são espectadoras do Todos desde o Intendente e a crítica recorrente que fazem ao festival tem a ver com a distribuição de bilhetes. Conversamos rapidamente sobre alternativas, desde bilhetes a preço simbólico em vez da entrada gratuita até à mudança no sistema de distribuição: “devia haver um horário em que os bilhetes para o dia fossem todos distribuídos, do meio dia às 2, por exemplo. E assim não só as pessoas eram obrigadas a estudar o programa como sabiam logo em quais espectáculos podiam entrar e organizavam-se. E escusávamos de andar a saltar de fila em fila para não ver espectáculo nenhum, como aconteceu hoje: estivemos na fila para ver o Pangeia e não deu, viemos para a do Fragmentos do Fim e também não deu. É muito aborrecido”. Volto a encontrá-las mais tarde na expedição Mulheres da Colina de Sant’ana. Dizem “só isto já valeu a pena”.

Há tanta gente interessada na caminhada que na estação zero o músico e compositor Pedro Salvador tem de erguer bem alto o amplificador, que habitualmente ficaria no chão, para Madalena Victorino se fazer ouvir com mais clareza quando apresenta a mulher que nos contará a história de todas estas mulheres, Célia Pilão. No Paço da Rainha o trânsito tem de ser interrompido para que a multidão possa ouvir em segurança a canção de escravatura que Selma Uamusse escolheu cantar aqui, mesmo ao lado do terreiro onde se erguia a então praça de touros do Campo Santana, onde escravas negras divertiam o público das touradas. Fá-lo num poderoso primeiro encontro com Lula Pena, cuja voz e guitarra hão-de, mais tarde, convocar uma celebração panteísta na igreja da Senhora da Pena. Maria José, que está a fazer um Mestrado em Estudos Urbanísticos, segue na expedição com entusiasmo duplo: “Conhecia muito mal este bairro e está a ser incrível poder entrar em zonas habitualmente inacessíveis”.

A caminhada-concerto percorre a Colina de Santana através da história de várias mulheres – do pioneiro Hospital Pediátrico sonhado pela raínha D.Estefânia ao jardim Maria de Lourdes Pintasilgo, homenagem à humanista e à política -, sempre a seguir o livro de Bárbara Assis Pacheco (belíssimas as aguarelas que finalmente se mostram na última estação), Rosa Reis (que fez as fotografias) e Célia Pilão, que nos guia pelas vidas destas mulheres tanto nessas páginas como nos lugares que agora atravessamos: 11 estações para 11 mulheres, da cirurgiã Carolina Beatriz Ângelo (a primeira mulher a exercer o direito de voto em Portugal) à pastorinha Jacinta Marto, cada uma pontuada pelo encontro com artistas – mulheres de agora, como a saxofonista Ana Raquel Martins cujos sons abrem e fecham esta expedição.

Descemos a calçada, subimos passagens escondidas entre fachadas, olhamos para janelas como se fosse a primeira vez, abrimos portas habitualmente fechadas e espaços que visitamos apenas quando a necessidade aperta, a espelhar com a nossa descoberta o próprio processo de construção do festival - que começa na experiência dos seus programadores.

Diz-me Madalena Victorino: “No início isto era como um mistério, uma sensação de não conseguir ler. A colina de Santana era uma espécie de deserto, edifícios magníficos, muita coisa abandonada. Queria ver por dentro das casas. Depois o fascinante é começar a perceber a vida, a memória, a identidade que carregam. É preciso andar muito pelas ruas, perceber as fissuras, os que são permeáveis e nos deixam entrar – um sorriso, uma frase, uma senhora à janela. E depois há pessoas que vêm trazer leituras que nós não conseguimos fazer: historiadores, bibliotecários, padres que nos trazem fragmentos desta história que juntamos como um puzzle muito rico, e aí começa uma trama de histórias que dão vontade de estabelecer relações”. E são relações que crescem de ano para ano: em 2016, por exemplo, a igreja do Hospital dos Capuchos abriu-se aos Violons Barbares – um acontecimento, igreja a abarrotar e aplausos sem fim – este ano, além de outro concerto na igreja (das Portugoesas) o TODOS conseguiu chegar às enfermarias, onde os doentes receberam os sons dos Union’s Hill em evento privado (e coisa de muita emoção, ouvi dizer, mas não consegui lá entrar).

Agora, na cozinha improvisada do Hospital Miguel Bombarda, 8 pessoas preparam o banquete para 500 comensais: partem pão e melancia, arranjam vegetais, cozinham couscous e húmus. Sónia, voluntária de 71 anos, bate o record pessoal - e talvez nacional - de horas a ralar cenouras: 6. Não conseguiu ver o espectáculo ontem, talvez hoje também não consiga, mas o prazer da conversa e a felicidade de conseguir alimentar uma multidão são ambos enormes e insubstituíveis. A equipa TODOS é uma recordista de milagres – dos voluntários aos produtores e programadores.

Foi esta equipa que, nos dias que antecederam o espectáculo, limpou e tornou acolhedora a zona inóspita onde agora se acotovelam 3 bancadas cheias e o palco para Halka, o popular espectáculo do Grupo Acrobático de Tanger. Entre o público - crianças, adolescentes, jovens adultos, adultos e mais velhos, portugueses e estrangeiros – que aguarda que o sol baixe o suficiente para os acrobatas poderem iniciar em segurança as suas espantosas evoluções,  há quem sonhe alto: e se este incrível jardim estivesse abertos à cidade, sempre?

O tema atravessa o banquete que se segue ao espectáculo, estendido no chão como um convite ao encontro, com tapetes e almofadas a ligarem esta comunidade de espectadores-comensais que, por uma noite, troca pão e conversas com parceiros antes desconhecidos. Francisca, que tem 11 anos bem explicados, está sentada ao meu lado ainda com a cabeça cheia das imagens que acabou de ver e que, rapidamente, a fazem eleger Halka como o espectáculo favorito do festival deste ano – o “homem que aguentava seis pessoas em cima dele” impressionou-a ainda mais que “os dois bailarinos no jardim”(Phasmes). Não mora no bairro, veio de propósito à colina de Santana com o pai, Bernardo, um arquitecto na casa dos quarenta, tal como ambos fizeram na edição do ano passado. E lembra-se muito bem de ter vindo cá “quando era pequena” ver uma exposição. O pai ajuda, diz que foi no Panóptico, quando ainda se podia visitar. Acrescenta: “este espaço podia ser da cidade, é magnífico. As coisas que se podiam fazer aqui”. Do meu outro lado – o TODOS é pródigo em acasos felizes – sentam-se Maria João e a filha Sara (das reservas do primeiro dia) que, com o irmão Manuel e a irmã Rosa, tenta eleger a coisa mais surpreendente do festival, de entre todas as que viram: o malabarista do colectivo Protocole que disparava a bazuca de malabares concorre com “o homem que aguentava a pirâmide humana, 6 em cima dele!” no espectáculo que a família completa acabou de ver. Maria João, que é produtora e realizadora, continua a conversa que começou com a família sentada do outro lado do tapete: “quando eu vim morar para este bairro, o Miguel Bombarda ainda funcionava e muitos dos doentes passavam parte do dia no jardim. Eu costumava vir para aqui ler e observar, e isso perdeu-se. É um desperdício”.

O Bombarda, dou-me conta, é também o perfeito palco para o ecletismo das propostas artísticas do TODOS, arte acrobática ancestral marroquina por um lado e vanguarda coreográfica por outro - a de Marlene Monteiro Freitas que instalou no Panóptico, aqui ao lado, uma versão redux de Bacantes (o seu mais recente trabalho) que abre celas e transforma o espaço com sons e luzes e o nevoeiro que os corpos quentes desenham na noite que se vai instalando, enquanto o banquete decorre no jardim.

Encontro Giacomo Scalisi no meio da cozinha improvisada onde se lavam as centenas de pratos, talheres, copos e chávenas utilizados na comezaina, trago para a conversa essa combinação de propostas e lugares tão diferentes no desenho do festival, sejam eles com projectos artísticos já existentes ou feitos para aqui de raiz. “Tudo se imagina a partir do território e das pessoas que o habitam. Tentamos entrar dentro do pensamento e do quotidiano das pessoas e propor momentos artísticos que façam sentido”, diz-me. E depois acrescenta: “Além de dar a descobrir esta cidade aos seus próprios habitantes. Eu, que sou estrangeiro, tenho um prazer particular nisto”.

De hoje até ao futuro

Foi o terceiro ano em que o bairro se encontrou no TODOS. A Colina de Santana é grande e é dispersa, muitas vezes parece que entre os da Luciano Cordeiro, os da Gomes Freire, os da Bempostinha e os da Calçada de Santana há mundos que não se tocam. Mas o festival desenha caminhos que os faz encontrarem-se. O TODOS catalisa e faz parte de um grande movimento com epicentro no Campo Santana que, ao longo destes últimos anos, tem feito bairro onde existiam grupos dispersos, gerando ocasiões e lugares de encontro. É nesses que, diz quem cá mora - e eu moro aqui há mais de 20 anos – é necessário apostar. É preciso investir em equipamentos para a comunidade. O parque canino inaugurado no Campo Santana no primeiro dia do TODOS é um excelente exemplo: existia já um grupo de pessoas que se cruzava com regularidade a passear os seus cães mas agora existe um espaço onde, com os bichos a brincarem em segurança, essas pessoas podem conversar, encontrar outros interesses comuns, organizar-se, participar mais activamente na vida do bairro. Houve quem, no espectáculo dos Protocole, desejasse uma piscina; eu gostaria de ter um mercado a acontecer no jardim, por exemplo, um mercado que valorizasse o artesanal, o local, os saberes antigos das várias comunidades aqui presentes e que possibilitasse a sua transmissão e partilha, sem guetos entre mais novos e mais velhos. 

O bairro está a mudar a uma velocidade incrível, a renovar-se em várias direcções: há uma residência de luxo para estudantes a nascer em metade de um quarteirão do Conde Redondo, uma galeria francesa na Bernardim Ribeiro, um café com iniciativas artísticas com enfâse na comunidade LGBT na Luciano Cordeiro, uma oficina de bicicletas para a comunidade às portas do antigo hospício. O alojamento turístico local cresce exponencialmente entre os edifícios fechados que vão dar lugar a hotéis ou condomínios de luxo, e rendas cada vez mais desgovernadas. É necessário acolher os novos sem expulsar os antigos. É crucial inventar espaços públicos onde as várias comunidades do bairro se possam reunir, espaços para as pessoas se encontrarem. O antigo quartel da GNR ocupado nesta edição pelo colectivo Protocole é um exemplo que descobrimos nestes anos do Todos, mas o imenso espaço do Miguel Bombarda, encerrado há mais de uma década, é o grande e surpreendente aglutinador das várias conversas: um projecto que abra portas no grande muro que existe no coração do bairro, que aproveite os seus muitos espaços – para habitação, restauração, centro cultural, oficinas – e que invista em grandes jardins e até hortas comunitárias nos terrenos desolados que o TODOS, depois de ter aberto o portão e ocupado tanto o Panóptico como o edifício principal com espectáculos e exposições, nos permitiu finalmente experienciar nesta edição com o espectáculo-banquete Halka, memória a guardar por todos os que lá estiveram. Muito bom seria que as portas abertas, as propostas artísticas e os lugares de encontro tornados possíveis pelo TODOS fossem a marca desta Colina de Santana durante o ano inteiro.

Maria João Guardão

Publicado por Festival TODOS às 27-09-2017 00:00

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