Entre Todos (Diário de Bordo)

 

Por detrás dos muros da Junta de Freguesia de São Vicente, para além da porta dissimulada pela laranjeira no Campo de Santa Clara, reuniram-se, durante cinco dias, à volta da produção de um sapato baboush, pessoas de várias culturas e idades, algumas cidadãs Portuguesas, outras chegadas ao país há menos de um ano. À volta da conceção de um sapato, objeto de uso comum em todas as culturas à volta do globo, pudemos ao longo destes dias, caminhar em conjunto, enquanto nos familiarizávamos com texturas, padrões e cortes diferentes. É interessante notar que todas as culturas têm práticas e objetos característicos, mas todas têm um design próprio de calçado, dependendo dos métodos de conceção, do uso de tecidos e materiais. É assim, um objeto universal, de utilidade comum.

Fiquei, à primeira vista, impressionada pela densidade de pessoas de origens diferentes que se encontravam naquele espaço. Agrupados no primeiro dia pelas suas origens que tinham em comum, os participantes mostravam-se reservados. Alguns eram oriundos da Associação CAIS, outros do Centro Português de Refugiados, alguns vindos da Santa Casa da Misericórdia, e outras pessoas curiosas por conviver e participar na conceção do objeto; a densidade visual de rostos expressivos e singulares, suscitou-me emaravilhamento.

Como seria a comunicação entre estas pessoas? Seriam elas abertas à partilha? De que maneira seria feita a comunicação? Apesar da visão geral de grupo, notei que se apresentavam bastante isoladas umas das outras. Enquanto grupo, os corpos eram distantes uns dos outros, os olhares um pouco desconfiados. Notei que pessoas com rosto mais duro partilhavam o seu espaço com outras de rosto mais doce e que esta multiplicidade tornava o espaço da Junta de Freguesia de São Vicente um espaço de encontros particular e único. Rapidamente puseram a apreensão de lado, e levantaram-se para recolher materiais, ou tirar dúvidas acerca da utilização dos mesmos. Ao longo dos dias, foi interessante observar que a limitada quantidade de máquinas disponíveis para a atividade, ajudou na realidade, os participantes a improvisarem métodos de comunicação entre si, tanto verbal, através da língua Portuguesa, Inglesa ou Francesa, mas também gestual, exemplificando os processos e passos a dar, através de sinais das mãos e a criação de papéis com os nomes de cada um. Também puderam recorrer ao telemóvel. A comunicação deixou de ser uma opção, mas uma necessidade, pois não haveria outra forma de criar o sapato sem a entreajuda comum. Considerando que muito poucos tinham noções do uso da máquina de costura, puderam questionar «como se faz isto?» «pode por favor me explicar como usar a máquina?». De que maneira teria sido o evoluir da comunicação, se cada pessoa tivesse ao seu dispor uma máquina de costura?

Os inscritos puderam partilhar as suas ideias com outros participantes, a artista líder Vera Alvelos, ou os ajudantes do “TODOS”, o Alieu da Gâmbia, a Mary da Nigéria, a Júlia de Portugal e o Ismail do Iraõ, trocando impressões à volta da multiplicidade de tecidos, agulhas e máquinas de costura disponíveis, promovendo o à vontade e a familiarização entre eles. Por vezes, a limitada quantidade de máquinas, assim como a densidade de objetos e materiais, foi motivo de impaciência, pois os participantes mais dinâmicos, se entusiasmaram com o seu objeto. Houveram também, durante o decorrer da atividade, dúvidas acerca do fabrico do sapato, referindo o país de origem como referência na conceção do objeto, criando pequenas tensões efémeras, mas produtivas, entre os participantes. O ambiente do TODOS propositou uma magnífica dinâmica entre as pessoas, agrupados não somente à volta da produção de um objeto comum, à volta dos materiais e das máquinas, mas fazendo partilhar as suas vivências e culturas, propositando bate-papo e conversas.

Na densidade de tecidos, cores e padrões diferentes, uma participante exclamou «O bom deste trabalho é que a pessoa começa a ver os panos de outra forma». Este agrupamento à volta de um objeto cuja utilidade é de uso comum, dinamiza a comunicação entre participantes, e gera oportunidade de aproximação ao outro, e de questionar aspetos mais singulares da pessoa. Permite conhecê-la melhor, conectando e desenvolvendo relações de afeto entre as pessoas, quebrando barreiras do preconceito ou do medo do desconhecido em relação a diferentes origens.

 

Atelier de Costura – TODOS

Semana de 6 a 10 de Agosto

Joana Correia

Publicado por Festival TODOS às 15-08-2018 18:30

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